I – Atenção e Desatenção – informações complementares
A ATENÇÃO pode ser definida como a capacidade de direcionamento dos PROCESSOS MENTAIS, de modo que o indivíduo possa se ater aos estímulos que são considerados relevantes (distinguindo-os dos supérfluos) para lidar, eficazmente, com a tarefa a ser realizada. FATORES AFETIVO-EMOCIONAIS (intrapsíquicos), ou seja, sentimentos gerados dentro de cada indivíduo, como ansiedade, medo, insegurança, entre outros, podem MODIFICAR A EFICÁCIA DA ATENÇÃO, mesmo dentro dos LIMITES DA NORMALIDADE.

A FALTA DE ATENÇÃO e INTERESSE no contexto escolar e familiar pode ser um sinal de que algo não vai bem com a criança. Por exemplo: não dispondo de CONHECIMENTOS PRÉVIOS em alguma área do currículo programático, ela pode direcionar a atenção na sala de aula para outros aspectos (internos ou externos), não pertinentes à situação. É preciso considerar também que o RITMO DE PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES pode diferir de uma criança para outra.
Por outro lado, a DESATENÇÃO pode estar relacionada à maneira pela qual o professor apresenta uma noção a ser trabalhada em sala de aula, que não desperta na criança a curiosidade, o interesse e a participação espontânea. Nestes casos, exemplificados acima, trata-se de OSCILAÇÕES periódicas da ATENÇÃO que não estão relacionadas a transtornos do desenvolvimento mental, mas que também precisam ser investigadas para que a criança receba o apoio necessário, a fim de EVITAR PREJUIZOS no seu PROCESSO DE APRENDIZAGEM.
No diagnóstico do TDAH, faz-se necessário utilizar dois critérios: o primeiro é a persistência dos sintomas por pelo menos seis meses, observados na criança com frequência e de forma acentuada; e o segundo, é que os sintomas devem ocorrer em pelo menos dois ambientes distintos, tais como a casa e a escola.
Portanto, é preciso destacar que, se os SINTOMAS TÍPICOS do TDAH ocorrerem APENAS em casa ou SOMENTE na escola, devem servir de alerta aos pais e aos diversos profissionais envolvidos no atendimento da criança, no sentido de investigarem a que esses sintomas possam estar relacionados. No primeiro caso (só em casa) a uma possível situação familiar instável, e, no segundo caso (apenas na escola), a vários fatores possíveis, desde a dificuldade de adaptação social até a um sistema de ensino inadequado para o aluno. Ambos os casos representam condições que podem afetar a vida emocional da criança.
II – Dificuldades provocadas pelo TDAH no contexto escolar
Pesquisas em diversos países indicam que os sintomas típicos do TDAH (DESATENÇÃO, HIPERATIVIDADE e IMPULSIVIDADE) são considerados problemas NEUROCOMPORTAMENTAIS que se refletem em vários aspectos da vida de uma criança ou adolescente.
As crianças portadoras do TDAH são comumente descritas por pais e/ou professores como preguiçosas, desligadas, desmotivadas frente às tarefas, bagunceiras, indisciplinadas e desorganizadas.
Embora uma criança já sinalize, ANTES DOS 6-7 ANOS, a presença de alguns sintomas típicos, na maior parte das vezes, o transtorno só é reconhecido quando ela ingressa no Ensino Fundamental. Nesta fase, os PERÍODOS REDUZIDOS DE ATENÇÃO, a INQUIETAÇÃO MOTORA e o BAIXO CONTROLE DA IMPULSIVIDADE se evidenciam com mais frequência, comportamentos estes que, muitas vezes, se tornam impedimentos para que a aprendizagem ocorra com sucesso. Além destas características, observa-se também baixa tolerância à frustração e imaturidade emocional.
Os SINTOMAS TÍPICOS vêm acompanhados de DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM e BAIXO RENDIMENTO ESCOLAR em algumas disciplinas relacionadas, principalmente, à LINGUAGEM (leitura e escrita, entre outros), ao RACIOCÍNIO MATEMÁTICO, e ainda, às HABILIDADES PERCEPTIVO-MOTORAS. Em geral, estas últimas se apresentam aquém do esperado para a idade, incidindo em muitas tarefas que as crianças realizam, as quais envolvem noções espaço-temporais e atividades motoras (gráficas), pois exigem bom domínio da coordenação motora fina.
É necessário destacar que:
- NEM TODAS AS CRIANÇAS COM TDAH APRESENTAM PROBLEMAS EM TODAS AS ÁREAS ACIMA MENCIONADAS.
- AS MANIFESTAÇÕES DOS SINTOMAS VARIAM DE UMA CRIANÇA PARA OUTRA E EM GRAUS DIFERENTES DE DIFICULDADES.
III – Dificuldades no contexto social
Os SINTOMAS TÍPICOS do TDAH afetam as relações sociais. Embora a criança com este transtorno procure obter a aprovação dos seus pares, os comportamentos caracterizados por agitação, reações impulsivas, falta de adequação às normas sociais e tendência a não seguir regras e combinados dificultam a participação nas atividades sociais. Com uma certa frequência, se observa rejeição por parte dos colegas e, consequentemente, um possível isolamento da criança.
IV – Dificuldades no contexto familiar
Esse transtorno tem um grande impacto na vida familiar: é comum ocorrerem conflitos no relacionamento da criança com os pais e irmãos. O prejuízo acadêmico e outras dificuldades associadas ao transtorno exigem considerável dedicação e empenho dos pais, a fim de possibilitar as adaptações necessárias para a criança.
A orientação parental é um dos aspectos mais importantes em qualquer tratamento do TDAH, com emprego de estratégias para redução do comportamento hiperativo e impulsivo.
V – Como os pesquisadores explicam a ocorrência dos sintomas típicos e os problemas a eles relacionados?
Funções executivas
Diversos estudos realizados com crianças e adolescentes mostram que o TDAH afeta diretamente as FUNÇÕES EXECUTIVAS do indivíduo portador do transtorno. Este funcionamento se refere a um conjunto de HABILIDADES COGNITIVAS necessárias para a aprendizagem e para a realização eficiente de atividades diárias, orientadas para um objetivo.
Segundo Barkley[1] (2024) o TDAH é um TRANSTORNO DO FUNCIONAMENTO EXECUTIVO, ressaltando especificamente a AUTORREGULAÇÃO (controle inibitório) de comportamentos sociais, das emoções e de estímulos distratores, essencial para tornar o portador desse transtorno um indivíduo FUNCIONAL ao longo da vida.

A região do cérebro responsável pelas FUNÇÕES EXECUTIVAS está localizada no lobo frontal, especificamente no CÓRTEX PRÉ-FRONTAL, considerado como a CENTRAL DE CONTROLE do sistema nervoso em que todas as regiões estão interligadas, formando uma grande rede de informações.
O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL apresenta NÍVEIS DE ESPECIALIZAÇÃO FUNCIONAL que se desenvolve de forma gradual e contínua através de um AMADURECIMENTO NEUROLÓGICO, o qual se inicia na infância e se completa no início da idade adulta, em torno dos 25 anos, em média. Portanto, é a região do cérebro cujo completamento se dá mais tardiamente e é responsável pelo PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES – das mais simples às mais complexas – que permitem ao indivíduo interagir com o mundo.

Disfunção executiva
O TDAH tem como principal característica a DISFUÇÃO EXECUTIVA. Isto significa um DÉFICIT FUNCIONAL DO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL.
A DISFUNÇÃO EXECUTIVA tem sido atribuída por vários pesquisadores a uma PREDISPOSIÇÃO GENÉTICA, BIOLÓGICA (com contribuição de fatores ambientais), relacionada a PROVÁVEIS ALTERAÇÕES NEUROQUÍMICAS do cérebro.
Benczik[2] (2010) se refere a uma PROVÁVEL REDUÇÃO E/OU LIBERAÇÃO de substâncias químicas produzidas no cérebro – os chamados NEUROTRANSMISSORES das CATECOLAMINAS, que incluem a DOPAMINA e a NORADRENALINA, indicando que o uso de medicamento psicoestimulante pode ter efeitos importantes no sentido de redução dos sintomas típicos do TDAH.
Apoiando-se na ideia de DÉFICT FUNCIONAL do CÓRTEX PRÉ-FRONTAL, os sintomas evidenciados nos portadores de TDAH, como: ESQUECIMENTO, DISTRATIBILIDADE, IMPULSIVIDADE e DESORGANIZAÇÃO seriam, PROVAVELMENTE, resultantes da insuficiência dos neurotransmissores no cérebro (desequilíbrio químico).
É necessário destacar que, até o momento, não se dispõe de exames específicos e marcadores laboratoriais que possam auxiliar no diagnóstico do TDAH, de forma mais objetiva. Assim, os critérios diagnósticos se baseiam em uma AVALIAÇÃO CLÍNICA do médico especialista, que consiste em: um relato dos pais/responsáveis sobre o histórico de vida da criança por meio de minuciosa anamnese; um exame do neurodesenvolvimento; um relatório escolar contendo informações sobre o desempenho pedagógico e aspectos comportamentais do aluno, e ainda, informações atualizadas, colhidas em questionário padronizado em duas versões, uma respondida pelos pais/responsáveis e outra pelos professores.
De modo geral, o médico conta também com os relatórios de psicólogos, psicopedagogos e outros profissionais que podem contribuir para o diagnóstico do caso.
[1] Barkley, Russell A. – Tratando TDAH em criança e adolescentes – o que todo clínico deve saber. Porto Alegre: Artmed, 2024
[2] Bencz1ik, F. B. P. – Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.